Maioria dos brasileiros não se identifica com os extremos – e pode decidir a eleição
Os brasileiros que deram uma zapeada nas redes sociais recentemente devem ter esbarrado em publicações de conteúdo político. Em linha com a polarização, os temas se moldaram principalmente aos interesses sempre divergentes da direita e da esquerda. Sob a expectativa de que a prisão definitiva de Jair Bolsonaro seja decretada em breve, a frase “Libertem Bolsonaro” — escrita em letras garrafais e impulsionada por apoiadores do ex-presidente — foi repetida mais de 200 000 vezes na última semana e permaneceu entre os assuntos mais comentados, superando, inclusive, menções ao popularíssimo craque Neymar. No lado governista da trincheira, a corrida por engajamento foi turbinada com a disputa pela paternidade do projeto apresentado por Lula para pôr um freio às facções criminosas. A confusão gerada com a decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta, de entregar a relatoria de uma proposta do governo ao deputado oposicionista Guilherme Derrite, secretário de Segurança licenciado de Tarcísio de Freitas, o governador paulista cotado para liderar a oposição em 2026, provocou uma reação em cadeia entre parlamentares e militantes progressistas, que armaram um contra-ataque virtual viralizando a hashtag “Congresso da bandidagem”.
A sensação é de que nada importa mais para a população do que a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro e os detalhes do projeto de segurança pública. Nas redes, a turba é dividida, barulhenta, engajada e hábil em pautar debates — mas, a despeito do enorme alcance digital, representa uma parcela bem menos expressiva do que se imagina na vida real. Essa constatação está em um estudo divulgado recentemente pelo think tank More in Common e feito em parceria com a Quaest. Foram ouvidos presencialmente 10 000 brasileiros de todos os estados em um questionário de quase 200 perguntas, a maioria delas tratando de temas com potencial de gerar ferozes embates ideológicos. O levantamento, porém, surpreende e demonstra exatamente o contrário.
Os dados coletados revelam que a polarização que parece dominar a pauta política, na verdade, envolve apenas 11% do eleitorado — um contingente estimado em 18 milhões de pessoas que se dividem entre direita e esquerda, tem posições bem definidas sobre temas específicos, particularmente em relação à chamada pauta de costumes, e mantêm uma militância intensa, dentro e fora das redes sociais. O principal achado do levantamento, porém, trata de um grupo que empiricamente se sabia que existia e era representativo, mas que ainda não havia sido dimensionado. A pesquisa constatou que a maioria da população, 54%, é absolutamente desapaixonada de política, não reza a cartilha de nenhum partido, evita entrar no ringue ideológico e tem a capacidade de flutuar da esquerda à direita em temas que costumam dividir a sociedade. Exemplo: eles confiam nas instituições e nas universidades, ao contrário dos bolsonaristas mais fervorosos, ao mesmo tempo que uma parcela relevante acredita que os direitos humanos podem atrapalhar o combate à criminalidade, ao contrário do que defende boa parte da esquerda.
O retrato mais surpreendente é da turma que os pesquisadores classificaram como “invisíveis”. Em linhas gerais, esse contingente, que representa mais da metade do eleitorado, é menos escolarizado, mais pobre e religioso e tende a ser conservador nos costumes e esperar maior assistência do Estado (veja o gráfico). No levantamento, ele foi subdividido entre os “desengajados” e os “cautelosos”. “Os invisíveis não compartilham notícias nas redes sociais, não discutem com a família e não vão a protestos simplesmente porque sentem que expressar a opinião política é um campo minado. Eles, então, preferem ficar em silêncio”, afirma Pablo Ortellado, diretor da More in Common e professor de gestão de políticas públicas da USP. “Isso não quer dizer que sejam despolitizados — é justamente o contrário. Eles têm uma elaboração muito pragmática, voltada para o serviço público e a oferta de empregos”, acrescenta o pesquisador. Decifrar e compreender essa massa de eleitores é um desafio para os políticos.
Nas últimas eleições, cerca de 25% dos invisíveis votaram nulo, em branco ou ignoraram a eleição — índice que revela, ao mesmo tempo, o descontentamento com as opções colocadas à mesa e também uma oportunidade aos candidatos de conquistarem votos. “Eles não têm afeto por liderança política nenhuma. E é isso que os faz diferentes e cortejados. Nas pesquisas mensais que fazemos, constatamos que há 20% dos ‘invisíveis’ mais à direita, 20% mais à esquerda e 10% que se mostram de fato independentes”, afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest, coautor da pesquisa. Segundo Pedro Bruzzi, sócio da Arquimedes, empresa que faz análise de dados das redes sociais, o que acontece hoje no Brasil é que uma minoria organizada consegue ter um impacto relevante porque há uma maioria dispersa. “Há no debate digital cerca de 2 milhões de publicações por dia sobre política. Desse total, quase a metade cita nominalmente o presidente Lula ou o ex-presidente Jair Bolsonaro, o que sugere um nível de polarização que não existe”, completa.
Já Duda Lima, marqueteiro da última campanha de Jair Bolsonaro, afirma que, apesar de os invisíveis fugirem do embate ideológico, tratar da agenda de costumes ainda é importante para mobilizar aqueles que atuam como militantes aguerridos. “Os invisíveis serão impactados pelos visíveis. Não dá pra separar, porque será o assunto no bar, no ponto de ônibus, na igreja durante a semana da eleição. Se eu tiver a minha militância ativa e empolgada, ela vai impactar os outros”, afirma. Outra estratégia, diz, é abordar assuntos do momento. “Se a eleição fosse hoje, o tema da segurança seria um dos mais relevantes. Eu ia dizer, por exemplo: ‘Se você quer que o bandido continue solto, pode votar no governo. Mas se você quer que o bandido fique morto ou preso, você vai votar na oposição’. Isso ia mexer muito com essa massa do meio”, aposta Lima.
Enquanto se avalia o impacto eleitoral do posicionamento dos brasileiros não polarizados, a corrida de 2026 ainda não tem suas candidaturas totalmente definidas. Pela esquerda, Lula já avisou que segue no páreo. À direita, o campo ainda aguarda uma definição de Bolsonaro sobre quem será o seu herdeiro político. Familiares do ex-presidente travam uma batalha para ficar com o espólio e garantir um sucessor disposto a manter viva a memória política do capitão, que, ao que tudo indica, estará preso durante o pleito. Corre por fora um time de governadores, sendo que o nome preferido da classe política é Tarcísio de Freitas. Levantamento divulgado pelo Paraná Pesquisas, na terça 11, apontou Lula vencendo em todos os cenários do primeiro turno e tecnicamente empatado na segunda rodada com Tarcísio e com Michelle Bolsonaro.
Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2025, edição nº 2970











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